Marly abriu a porta. Quem segura agora?
Keyla Kim • Colunista Elas Constroem
A trajetória de Marly me faz refletir sobre o caminho que as mulheres abriram no mercado imobiliário — e sobre a responsabilidade de quem chegou à liderança. Ainda somos muitas na corretagem, mas poucas ocupam os cargos de decisão. Agora, precisamos segurar a porta aberta, preparar novas líderes e garantir que mais mulheres possam assumir seu lugar.
Quem é Marly
Marly da Silveira Ferreira começou a vender imóveis no Rio de Janeiro em 1976. A partir de 1985, passou a atuar na gestão do sindicato, na diretoria e no conselho fiscal. Em 2013, trinta e sete anos depois de começar a vender, tornou-se a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Corretores de Imóveis do Município do Rio de Janeiro, entidade fundada em 1937, antes mesmo de a profissão ser regulamentada.
Faça a conta: foram 76 anos de sindicato até uma mulher chegar à presidência. E não era um sindicato qualquer. Ele teve papel fundamental na criação de outras entidades da categoria, como os CRECIs, o COFECI e a Fenaci.
Em depoimento à Fenaci, Marly contou que hoje quase não vê preconceito contra a mulher corretora, mas que, quando começou, havia muito. O exemplo que ela dá é concreto: os estandes de venda não tinham banheiro feminino. Eu acredito nela. E acredito também que o preconceito não desapareceu. Ele só mudou de andar.
A lei que dizia não
Como advogada, sempre me incomodou um dado que circula no nosso mercado sem fonte. Quase todo texto sobre mulheres na corretagem afirma que fomos liberadas em 1958, alguns dizendo que foi por decisão do Tribunal de Justiça.
Fui atrás do texto da lei. O Código Comercial de 1850, no artigo 37, listava quem não podia ser corretor. No item 2, sem rodeio: as mulheres. Esse artigo só foi revogado com o Código Civil de 2002, que entrou em vigor em janeiro de 2003. E decisão judicial não altera texto de lei.
Este é o texto original, da Lei nº 556, de 25 de junho de 1850:
Art. 37. Não podem ser corretores: 1 - os que não podem ser comerciantes; 2 - as mulheres; 3 - os corretores, uma vez destituídos; 4 - os falidos não reabilitados, e os reabilitados, quando a quebra houver sido qualificada como compreendida na disposição dos artigos nºs 800, nº 2, e 801, nº 1.
Repare na lista: as mulheres aparecem lado a lado com corretores destituídos e falidos não reabilitados. E, mesmo para o comércio em geral, o artigo 1º do mesmo Código só permitia que a mulher casada comerciasse com autorização do marido:
Art. 1º. Podem comerciar no Brasil: (…) 4 - As mulheres casadas maiores de 18 (dezoito) anos, com autorização de seus maridos para poderem comerciar em seu próprio nome, provada por escritura pública.
A corretagem de imóveis ganhou lei própria em 1962, e a Constituição de 1988 declarou homens e mulheres iguais em direitos e obrigações. Mesmo assim, o registro histórico é este: por mais de 150 anos, a lei comercial brasileira dizia por escrito que mulher não podia ser corretora. Marly entrou no mercado com essa frase ainda impressa no Código.
A base cresceu. O comando, nem tanto
Cinquenta anos depois da estreia de Marly, somos muitas. Em março de 2026, o COFECI contava 232.153 mulheres registradas, de um total de 654.573 profissionais. São cerca de 35,5% da categoria. São Paulo lidera, com 79.676 corretoras.
O problema é o andar de cima. Na pesquisa O Lado Feminino do Mercado Imobiliário, feita em 2021 pelo movimento Mulheres do Imobiliário com a Datastore, que ouviu mais de 800 profissionais, só 28% das entrevistadas disseram que os cargos de liderança são ocupados por mulheres. E 61% afirmaram que ser mãe e profissional no setor ainda é tabu.
Eu conheço os dois lados dessa estatística. Criei minha filha sozinha durante boa parte da carreira de corretora e hoje sou dona de imobiliária. O que separa uma coisa da outra não foi talento. Foi gestão, rede e alguém que abriu a porta antes.
Quem segura a porta agora
Marly levou 37 anos para chegar à presidência de um sindicato que existia havia 76. Não dá para esperar mais 37 anos para que a liderança das imobiliárias, dos conselhos e das entidades reflita quem está na ponta vendendo.
Pioneira não é só quem abre a porta. É também quem segura para a próxima passar. Isso significa promover corretoras a gestoras, criar regras que não punam a maternidade e ocupar as cadeiras das entidades de classe, inclusive as eleitas.
Marly fez a parte dela. A pergunta para cada dona e cada gestora que lê esta coluna é: quem você está preparando para assumir o seu lugar?
Keyla Kin é CEO e fundadora da Kin Imóveis, advogada, corretora e mentora do Método KIN para donos e gestores de imobiliária.
Fontes
Fenaci: depoimento de Marly da Silveira Ferreira (fonte principal sobre a trajetória dela)
Universal Software: a mulher no mercado imobiliário (trajetória de Marly)
Publicidade Imobiliária: Marly, primeira presidente eleita em 2013
Planalto: Código Comercial, Lei 556/1850
LegJur: art. 37 do Código Comercial e sua revogação
CRECI-RN: história da profissão
Tribuna do Sertão: dados COFECI de março de 2026
Jornal Contábil: pesquisa O Lado Feminino do Mercado Imobiliário (2021)
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